Leibniz & Deleuze
02 / EnsaioFilosofia

Leibniz & Deleuze

Variações e ponto de vista de Leibniz por Gilles Deleuze

A Dobra, o Barroco e o perspectivismo monadológico

Mônada · Barroco · Perspectivismo · Diferença

VARIAÇÕES E PONTO DE VISTA DE LEIBNIZ POR GILLES DELLEUZE

Resumo: Neste capítulo abordaremos especialmente o que Deleuze aprendeu (apreendeu) com Leibniz e o Barroco e incorporou em sua filosofia do perspectivismo Partindo deste encontro, estaremos assim conectando este capítulo com o segundo para a monografia sobre Leibniz,

"é preciso sempre voltar ao teatro de Leibniz"

A Dobra. Pg 125

Este artigo visa introduzir a noção de interpretativa da necessidade do eterno retorno em Gilles Deleuze. O trabalho terá como foco expor a filosofia de Leibniz analisando seus conceitos monadológicos em a A Dobra, Leibniz e o Barroco. Contrapondo seu relativismo e perspectivismo leibniziano para posteriormente comprovarmos a riqueza de conceitos transmutáveis e de diferentes abordagens e perspectivas que o filósofo prussiano detém. Afirmando a intenção do texto em defender a perspectiva de Deleuze sobre o modo que devemos ler Leibniz deve sempre partir de uma alegoria barroca e não de uma história linear da filosofia. Pois assim conseguimos abstrair o melhor de seu pensamento, a potência da criação do novo através da sua multiplicação de conceitos.

O PONTO DE VISTA MONADOLÓGICO SOB A PERSPECTIVA DO MUNDO BARROCO

Leibniz em sua obra A monadologia descreve que apesar de as mônadas expressarem todas o mesmo mundo infinito, elas não o expressam da mesma maneira. Isso porque elas não o expressam da mesma perspectiva, mas cada uma do seu ponto de vista. Leibniz afirma que cada mônada representa o universo inteiro à sua maneira, a partir de um certo ponto de vista, fazendo com que as percepções ou expressões do mundo externo ocorram na alma em um dado momento. No perspectivismo de Leibniz sujeito à lei da convergência, cada mônada é um espelho, um ponto de vista do mundo e mostra claramente

*estudante ultimo semestre graduação em Filosofia FFLCH-USP

apenas uma pequena parte arrancada do resto de um mundo virtual percebido com confusão. Rompendo com a prejudicialidade cartesiana de um sujeito pensante, Leibniz postula que é o sujeito que decorre do ponto de vista em que surge e não do ponto de vista que depende de um sujeito original. Um sujeito autômato não sofre as ações das outras mônadas. Ela combina essa espontaneidade na expressão com uma programação de todas as séries desejadas por Deus. Dessa forma, preocupada com múltiplos choques - pequenas percepções e inclinações - que a obrigam a produzir acordos entre relações diferenciais, cada mônada dobra o mundo de acordo com uma assinatura singular do movimento em que dobra o enxame de suas pequenas percepções em uma percepção consciente, ou seja, Leibniz acrescenta liberdade à conspiração universal pela qual Deus submeteu o mundo ao princípio ótimo do melhor de todos os mundos possíveis.

Leibniz ao escolher o melhor dos mundos possíveis -- aquele onde reina o máximo de continuidade, o mínimo de vazio - ele restringe sua criação à lei das séries convergentes: harmonia pré-estabelecida entre todas as mônadas, ou seja, todas as substâncias individuais que expressam o mesmo mundo e o fechamento de mônadas sobre si mesmas constringem o mundo barroco na fórmula de um cálculo divino que sempre se faz adequado, cada mônada é um espelho, um ponto de vista do mundo e cada ponto de vista dotado necessariamente de um corpo orgânico detém um ponto referencial diferente que lhe fornece um ponto de vista exclusivo. Importante ressaltar a coexistência entre a alma e o corpo orgânico dotado e uma multiplicidade de monadas regidas por uma monada dominante o que nos distingue dos objetos inertes por exemplo bem como de Deus que possui todos os pontos de vista possíveis em razão de não possuir um corpo orgânico. Todo o concerto do mundo organizado eternamente por Deus sob o selo de uma harmonia pré-estabelecida não impede que cada mônada seja livre, pois seus atos atualizam sua liberdade espontânea. Daí o trecho capital da teodicéia: a alma é inclinada sem ser necessária

Mesmo que Deus tenha programado a travessia de César pelo Rubicão, mesmo que César não cruze o Rubicão implica que estamos lidando com outro mundo, incompossível, o ato voluntário de César é livre em desde que

expresse a amplitude da alma no presente. Há inclinação, sem haver determinação. O princípio da razão suficiente proposto por Leibniz afirma que tudo o que acontece com uma coisa deve ser incluído na noção dessa coisa. A monadologia leibniziana traz a compreensão dessa expressividade enquanto um sujeito envolvendo (implicando) o mundo, dobrando as dobras do mundo (Deleuze falará em redobras e desdobras). Por um lado, temos a dobra do mundo que deve ser expressada ou atualizada, por outro, somos nós que o trazemos à existência atual através de nossas percepções.

(Discurso da metafísica, § 30).

AS DIFERENÇAS ENTRE LEBNIZ EM O EXPRESSIONISMO DA FILOSOFIA E NA DOBRA, LEIBNIZ E O BARROCO

Após expormos uma visão monadológica e primordial do conceito das dobras em Leibniz, demonstramos agora lógica da função operatória barroca e das expressões das dobras infinitas em Deleuze. O Barroco na perspectiva do filósofo francês atua como uma força de deslocamento do pensamento e movimento imanente de criação de conceitos. Em suma, Deleuze utiliza-se de modos de expressão não filosóficos para pensar o perspectivismo através das dobras barrocas, pois as singularidades para Leibniz nada mais são do que as expressões de um ponto de vista, mostrando que este deve ser lido através da alegoria barroca e não de uma história linear da filosofia. O mundo não possui uma harmonia pré-estabelecida, o universo caótico é formado por infinitas séries divergentes na filosofia leibniziana e em Deleuze, incompossibilidades e dissonâncias atualizam-se no mesmo mundo em que vivemos.

Analisemos um trecho Do mundo curva fictício de Leibniz por Deleuze no capítulo 4 de A Dobra, quando diz que o conceito de mundo não designa um conjunto de coisas, mas séries de acontecimentos:

'' Você pode considerar o mundo, mas ainda uma vez o mundo não existe em si, existe apenas nas noções que o exprimem. Mas você pode fazer esta abstração, considere-o como uma curva complexa. Uma curva complexa tem pontos singulares e pontos ordinários. (...) e você compõe a curva de maneira contínua como esta, por

123 (capítulo 8 de A Dobra).

prolongamento das singularidades sobre as séries ordinárias. Para Leibniz, o mundo é isso. O mundo contínuo é a distribuição das singularidades e das regularidades (...) Vocês se lembram que as noções individuais ou mônadas são pontos-de-vista sobre o mundo. Não é o ponto de vista que explica o sujeito. 115 A Dobra, p. 219. 64 Donde a necessidade de se perguntar: o que é esse ponto-de-vista? Um ponto-devista se define assim: um pequeno número de singularidades levantado sobre a curva do mundo. Isso é o que está no fundo de uma noção individual. O que faz a diferença entre você e eu, o que você é nesta espécie de curva fictícia, é que você está construído em torno de tais ou quais singularidades e eu em torno de tais ou quais singularidades. E isso a que você chama de individualidade é um complexo de singularidades, à medida que elas formam um ponto-de-vista''.

Na referida obra, Deleuze refere-se à filosofia de Leibniz através do símbolo, o que o próprio não repete em A Dobra e uma alegoria é uma repetição infinita, como as dobras barrocas, ao contrário de um símbolo, que é uma referência identitária, uma recognição. A alegoria é uma afirmação do barroco e liga-se a Leibniz na produção infinita de conceitos, pois nessa reprodução infinita um ponto de vista nada mais é do que um pequeno número de singularidades extraídas da curva do mundo. O mundo fenomênico (ou material) é como uma túnica dobrada e desdobrada em todas as direções. Para Leibniz, dobras são uma maneira de diferenciar a matéria sem introduzir nela uma descontinuidade, como seria caso houvesse átomos. Importante notar que diferente do primeiro Deleuze este segundo procurar interpretar a filosofia de Leibniz por meio de uma ontologia do barroco então descrito por Benjamin. Uma das maiores influências para a nova leitura de Deleuze foi A Origem do drama barroco, de Walter Benjamin. Este fez com que Deleuze enxergasse Leibniz através da alegoria barroca. O mundo como uma série de acontecimentos. Tentamos aqui ver a relação Deleuze-Leibniz a partir da noção de objeto enquanto acontecimento dobra, força.

Dessa forma analisando os principio da monada na obra de Leibniz conseguimos apreender o seu denominado Relativismo. Deleuze nos mostra em A Dobra, que o referido termo é uma dependência ao eu, só uma filosofia dependente do sujeito poderá ser relativista. Agora podemos concluir o que é o perspectivismo: uma relação expressiva entre indivíduos e mundo. O sujeito não fundamenta um ponto de vista do mundo, mas sujeito é aquele que vem ao ponto de vista. "É esse o fundamento do perspectivismo. Este não significa uma dependência em face de um sujeito definido previamente"122. A individualidade da alma, a verdade de suas percepções e sua perspectiva sobre o mundo são indissociáveis. As singularidades intrínsecas nada mais são, Deleuze agora poderá dizer usando a geometria barroca leibniziana, que um traçado de pontos de vista. E as mudanças ao longo do trajeto de uma curvatura são lidas como uma tendência de variação para o infinito.

CONCLUSÃO

Isso quer dizer que a Ideia já não pode mais ser pensada nem como una nem como múltipla, ou ainda, como a síntese do uno e do múltiplo ao mesmo tempo: a ideia é ela própria, uma multiplicidade. "Deus joga mas dá regras ao jogo [...] A regra é que mundos possíveis não podem passar à existência se forem incompossíveis com aqueles que Deus escolheu". Percebemos que em Deleuze o pensador obtém o costume de se utilizar de algum momento filosófico no qual esteja abordando trazendo e moldando os filósofos ao seu modo de pensar e não se adequando a ela -- Assim na ontologia de Leibniz sob a perspectiva da força em Nietzsche ou na contração de hábitos do eu em Hume , que também será utilizado na Dobra. Logo conseguimos verificar que Deleuze começa sua filosofia com uma crítica da metafísica, crítica da representação e dos limites do pensamento da fundação, ou do fundamento uma das questões centrais do pensamento deleuziano é como para Heidegger, o pensamento do ser.

(Deleuze, 1991, p.109).

2 (DELEUZE, 2006, p.131).

122 A Dobra, p. 40.

Para Leibniz A verdade do sujeito nada tem a ver com representação, deve ser buscada no mundo no qual o sujeito está incorporado. Podemos concluir descrevendo que Delleuze buscou o otimismo e a alegria em Leibniz. O que Deleuze extrai da perspectiva barroca, em contraponto à fenomenologia, é que nossa experiência não é governada por intenções, mas por perspectivas.

Para Véronique Bergen ao se debruçar sobre a ontologia deleuziana, Leibniz busca uma maneira para compreender, não mais a univocidade do ser, mas a equivocidade dos seus sentidos, ou como o ser se desdobra em diversos sentidos. Pois no decorrer de sua extensa obra o ser é unívoco, mas ele se diz de diversas maneiras, de maneira equívoca. O perspectivismo barroco e cada mergulho Deleuziano nas dobras infinitas, novas conexões são feitas, um no o Leibniz emerge através de relações diferenciais, É o eterno retorno de um sujeito diferente que emerge. Em A dobra há claramente um embate com o relativismo: ser para o mundo enquanto princípio objetivo (ponto de vista) contra a experiência subjetiva fragmentária (a cada um a sua verdade).

O certo é que Deleuze dobra e desdobra Leibniz em sua série 'louca' de criação de conceitos: singularidade, virtualidade, multiplicidade, séries convergentes e divergentes. Deleuze substitui o sujeito 'monádico' -- fechado sobre o mundo harmônico - e o convergente expressado de dentro de si pelo nomádico -- desdobrado e aberto ao fora através do incompossível e divergente, uma singularidade intrínseca, variação que se 'instala no ponto de vista' enquanto se movimenta entre séries divergentes infinitas

O mundo fenomênico (ou material) é como uma túnica dobrada e desdobrada em todas as direções. Para Leibniz, dobras são uma maneira de diferenciar a matéria sem introduzir nela uma descontinuidade, como seria caso houvesse átomos. Importante notar que diferente do primeiro Deleuze este segundo procurar interpretar a filosofia de Leibniz por meio de uma ontologia do barroco então descrito por Benjamin. Uma das maiores influências para a nova leitura de Deleuze foi A Origem do drama barroco, de Walter Benjamin. Este fez com que Deleuze enxergasse Leibniz através da alegoria barroca.

Agora , conseguimos ver aqui O mundo como uma série de acontecimentos. Tentamos aqui ver a relação Deleuze-Leibniz a partir da noção de objeto enquanto acontecimento, dobra, força.

Deste modo, a diferença de singularidades é a continuação de desdobramento de séries de mundo dobrados na mônada.