Santo Agostinho & Paul Ricoeur
03 / EnsaioFilosofia

Santo Agostinho & Paul Ricoeur

A dialética de Paul Ricoeur como ponto de contato entre o humano e o divino no Livro XI de Agostinho

Tempo, eternidade e a distensão da alma

Santo Agostinho · Tempo · Eternidade · Homem · Deus

A DIALÉTICA DE PAUL RICOEUR COMO PONTO DE CONTATO ENTRE O HUMANO E O DIVINO NO LIVRO XI DE AGOSTINHO

Resumo:** Este trabalho irá procurar abordar a noção de tempo presente em Agostinho no capitulo XI buscando analisá-la bem como fazer uma relação frente ao filósofo francês Paul Ricoéur de que a linguagem frente a distensão da alma e do tríplice entente coloca o tempo de uma forma que permite ser configurado e reconfigurado na temporalidade.

Palavras-chave:** Santo Agostinho. Tempo. Eternidade. Homem. Deus.

SAO PAULO, 2020

INTRODUÇÃO

Higor Nogueira Souza¹

Entre 398-399 em Confissões, Agostinho escreve uma das mais importantes de suas obras. Sendo considerada autobiográfica e marcante no quesito da história do pensamento doutrinário cristão, ao dar partida à sua interrogação sobre o tempo. Dentre todas as inquietudes presente na obra, esta ofereceu uma peculiar e laboriosa investigação: a questão aporética sobre a essência do tempo, pois conforme o próprio Agostinho: O que é, pois, o tempo? Quem poderá explicá-lo clara e brevemente? Quem o poderá apreender, mesmo só com o pensamento, para depois nos traduzir com palavras seu conceito?

Assim , o presente artigo tem como objetivo realizar uma análise fundamentada no seu livro XI em que iremos interagir com suas indagações sobre o tempo e a linguagem como possibilidade na constituição da eternidade e da temporalidade, ou seja, sua relação com a memória constitutiva da identidade do individuo. Utilizando o filósofo Paul Ricoéur em sua obra Tempo e Narrativa (1983), para demonstrar como a linguagem a partir desta nova perspectiva de uma nova e verdadeira experiência da temporalidade consegue sim obter um novo ponto de interpretação na filosofia Agostiniana.

A NOÇÃO DE TEMPO FRENTE AO ETERNO -- DIVINO EM AGOSTINHO

O bispo de Hipona inicia no capitulo XI o seu questionamento sobre a questão fundamental que vai ser o ponto capital da reflexão a partir de então: a do ser e do não ser do tempo.

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1 - estudante graduação em Filosofia é graduando da 8ª semestre de Filosofia pela Universidade de São Paulo

Façamos agora uma análise do seguinte trecho de Agostinho Confissões p. 292 acerca do tempo afim de expor o seu método analítico:

"Quando poderei eu, com a língua da minha pena, enumerar todas as Vossas solicitações, terrores, consolações e incitamentos com que me introduzistes a pregar a Vossa palavra e a distribuir a Vossa doutrina ao vosso povo?"²

Agostinho no decorrer de sua análise do trecho citado, expõe o contraste entre a eternidade divina e a temporalidade. E demonstra que o tempo não é um subconjunto pertencente da eternidade. Mas afinal, o filósofo se pergunta: De onde tudo foi criado ? Para Agostinho o tempo é estudado, sob o aspecto psicológico (como o homem o apreende). Assim, as ideias das coisas existem na inteligência divina desde toda a eternidade, porém o que Deus quer produzir só aparece na ação de sua volição, através de um ato livre e eterno do próprio Deus. Assim o tempo analisado sob o aspecto psicológico não pode medir a eternidade, partindo das ideias presentes na mente de Deus e que se concretizam na realidade. Tempo e eternidade são dimensões incomensuráveis e a eternidade está acima de todo tempo. Eis aqui a importante relação onde o tempo se encontra ligado à memória, à intenção e à espera. Ele encontra na alma sua realidade, no distender-se (distensão) da vida interior do homem. O tempo não é uma sucessão de espaços separados, mas sim contínuo e indivisível, ele é uma continuidade, e não admite sua divisão em antes e depois.

Se faz possível dessa forma estabelecer que a temporalidade é própria do homem e não possui atributos da eternidade, pois somente Deus é eterno. Porém, o tempo é criação divina e dada pelo Verbo, e neste não há sucessão e o tempo é caracterizado pela sucessão. Essa vontade pertence à própria substância de Deus. Se alguma coisa surgisse na substância de Deus que antes lá não estivesse, não podíamos, com verdade, chamar a essa substância eterna ''Mas, se desde toda a eternidade é vontade de Deus que existam

2. (AGOSTINHO CONFISSÕES, 1981, p. 292).

criaturas, por que razão não são criaturas eternas?'' ³. Agostinho baseando-se em experiências pessoais que tem em sua mente, conclui novamente que na verdade não há tempo passado, tempo presente e nem tempo futuro, mas acha próprio dizer que há presente das coisas passadas, presente das coisas presentes e presente das coisas futuras.

Dessa forna, Agostinho após esclarecer suas indagações passa a elaborar sua teoria de como se dá o tempo e ela é explicada por uma tríade: memória, intenção e espera (pretérito, presente e futuro) existente na mente humana. Em síntese, o tempo não é nem o espaço percorrido pelo movimento, nem o próprio movimento multiplicado, ou uma grandeza a progredir com o movimento igualmente medida pelo espaço, nem por fim a divisão e caracterização em antes, agora e depois do próprio movimento da Alma. Ele é o puro acontecer deste movimento, sendo contínuo e sucessivo. A partir deste momento a questão não é mais ''O que Deus fazia antes da criação? mas como se comporta o tempo?'' A resposta inicial de Agostinho é famosa e se encontra repetida ao longo da tradição filosófica: "Se ninguém mo perguntar, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei. Porém, atrevo-me a declarar, sem receio de contestação, que, se nada sobreviesse, não haveria tempo futuro, e se agora nada houvesse, não existiria tempo presente'' 4.

Santo Agostinho sempre abordou o problema da memória que distingue-se primeiramente pela sua extraordinária amplitude, bem como pela capacidade de sintetizar as informações captadas pelos sentidos e associar ideias e juízos inteligíveis. Sendo um ponto de contato entre o humano e o divino, a memória sempre esteve atrelada com a noção de tempo para Agostinho, pois é responsável pelo núcleo-base que torna possível não só todas as formas de conhecimento mas o próprio fundo existencial da vida dos homens e para procurar explicar a indagação sobre o comportamento do tempo Agostinho irá retomar essa ideia da memória presente no tempo.

3. (AGOSTINHO, 1992, 218)

4 -(RICOEUR TEMPO E NARRATIVA, 1997, p. 20)

A RESOLUÇÃO DO PARADOXO TEMPORAL E DA EXTENSÃO DA ALMA EM AGOSTINHO

A pergunta proposta por Agostinho para resolver a questão do tempo trata-se do ser e não-ser do tempo. E respondê-la implica em um paradoxo. O paradoxo se constrói do seguinte modo: se o passado não existe mais e o futuro ainda não surgiu, só o presente teria então existência. No entanto, se o presente existisse separadamente dos outros dois tempos verbais teriam as mesmas características da eternidade, isto é, um presente sem passado e sem futuro coincide com uma das definições de eternidade. Então, para ser tempo, ele teria necessidade de passar e, portanto, teria de deixar de ser. Assim, também não podemos falar do presente, pois a única forma de termos o presente como tempo é a não existência do mesmo.

O primeiro passo para resolver o paradoxo é a transposição da problemática do tempo cosmológico para o tempo intimo, tempo interior ou da alma. Com isso, Agostinho poderá em um segundo momento, admitir o ser do tempo presente sem, contudo, identificá-lo com a eternidade demonstrando assim o tempo presente na alma. A alma assim, poderia guardar consigo certo vestígio da eternidade. Desta maneira Agostinho introduzirá uma nova terminologia para que se possa falar das três modalidades do tempo: a tese do tríplice presente. Se por um lado, a tese do tríplice presente resolve o paradoxo ontológico do tempo (o ser e o não ser), A pergunta que surge agora é a respeito da passagem do tempo presente na alma, ou seja, resta ainda um problema adicional para Agostinho, resolver a relação ao ser do tempo.

Como medir algo que não tem extensão, mas distensão? Na alma. Agostinho complementa a sua definição de tempo como distensão da alma e não mais como extensão. Para Agostinho, o conceito de distensão indica, no interior da alma, a própria extensão de algo que não tem extensão. Soluciona o enigma da extensão de algo que não tem extensão transportando as noções de categoria aristotélicas do mundo cosmológico para a alma. A tese do tríplice presente resolve o paradoxo ontológico do tempo e a noção de distensão da alma soluciona o enigma da extensão de algo que não tem extensão. Por fim Agostinho continua a enfrentar a problemática do tempo. Pois como medir algo que agora apenas tem distensão e não mais extensão ? Assim Agostinho no capítulo XI procura denunciar que nossa linguagem não serve para estabelecermos alguma comunicação, pois nossa língua é falha frente à tamanha perfeição que é Deus.

A LINGUAGEM COMO POSSIBILIDADE ATEMPORAL POR PAUL RICOÉUR

Entretanto, através do pensamento do filósofo francês Paul Ricoéur (1913-2005) , conseguimos identificar um ponto de destaque sobre a linguagem. Pois esta coloca o tempo de uma forma que permite ser configurado e reconfigurado pelo leitor/ ouvinte, que acede aos diversos modos temporais não pelo tempo, mas pela narração. Seguindo, portanto, de perto as pegadas deixadas por Agostinho, o filósofo francês demonstra como a reflexão aporética deixada pelo texto do Livro XI consegue, a despeito de suas constantes hesitações, a mais ambiciosa investigação desde as antigas teorias do tempo, de Platão a Plotino, mesmo levando em consideração seu caráter aporético. Segundo Ricoéur, o ser e o não-ser do tempo de Agostinho se situa dentro de uma outra medida ainda maior, que é saber a medida do tempo, uma vez que algo só pode ser mensurado se, de algum modo, este algo realmente exista.

Para Ricoéur, a falta de crença na linguagem em Agostinho se deve ao fato de sua herança filosófica em relação aos céticos, pois na visão destes não era possível obter por meio da linguagem uma verdadeira experiência da temporalidade. Uma vez que esta manifesta uma resistência, pois volta a si mesma para falar do tempo, não conseguindo resolver a aporia interna do discurso. E é justamente nessa dialética de eternidade e temporalidade, recolhimento e dispersão, memória e esquecimento, ser e nada, que se dá a experiência do tempo e do sentido na linguagem. Pois em Ricoéur: ''A experiência humana é herança e Agostinho encontra na experiência de narrar, de contar o tempo, de recolher os fragmentos do vivido em um discurso, algo da estabilidade divina. ''5

Logo, o contraste tempo-eternidade provoca o confessar das diversas intensidades temporais contidas no indivíduo, permitindo assim um aprofundamento da temporalidade humana, em níveis sempre mais estendidos, contra a ideia de um tempo linear e cronológico (esta sem qualquer relação com o tempo divino). Para Ricoéur, a alma não tem uma caraterística somente passiva, de marcar as afecções sentidas para que o tempo subjetivo, ou seja, no individuo seja medido. Existe uma atividade atuante da alma em deixar as afecções conforme demonstrado em uma passagem de Agostinho : '' O que meço então ? '' (Quid ergo metior ?). Agostinho agrega de modo interrogativo: ''Talvez os tempos que passam não o que já passou ? Para Ricoéur, estes passos das Confissões comprovam que o tempo é medido '' No presente e ao passar (transit, praetereuntia)'', e que, a medida do tempo resulta do encontro entre a multiplicidade do presente (como tríplice presente) e o seu dilaceramento, a sua dilatação ou distensão na alma (distentio animi).

E tal explicação de Ricoéur diz respeito a uma ação do espírito que consiste a um só tempo, num movimento de tensão e distensão. Aqui para Ricoeur tudo está interligado a partir do polo da atividade, pois para o filósofo francês " A impressão só está na alma enquanto o espírito age, isto é, espera, está atento e recorda-se" 6. Logo esse rememorar é ativo, implicando em uma ação. Conclui-se então, que não há impressão na alma sem a atuação do espírito, em última instância, é o espírito que está atento, tem expectativa e rememora.

5 -- (RICOEUR TEMPO E NARRATIVA, 1997 , p. 28).

6. (RICOEUR, 1983, p. 41)

CONCLUSÃO

Podemos concluir que a análise da obra em Agostinho se dá basicamente a partir do livro X atingindo seu ponto mais crucial em XI na analítica do tempo. Não encontramos aqui subjetividade nos seus textos e sim uma analise teológica e moral sobre sua incompletude como individuo. Apesar de sabermos que para Agostinho a filosofia caminha antes da linguagem das coisas e da lógica do mundo, garantindo que Deus já encontrou essa reflexão lógica entre linguagem e o real, pois ela esta lá, apenas precisamos encontrar. Pois em sua filosofia é necessário primeiramente crer para entender tendo em vista o comportamento do seu entendimento. Logo encontramos no pensamento do filósofo medievo que a bíblia é a detentora da real verdade, porém temos que investiga-las pois seu conteúdo pode se tornar instável.

Segundo a crítica Ricoéur que procurou abrir caminho para uma interpretação além da reflexão fenomenológica do texto de Agostinho, este observa que a solução dada pelo mesmo ao problema do ser do tempo só é compreendida em sua totalidade nesse permitir da fruição da noção da linguagem presente na aporia junto ao movimento de eternidade- temporalidade. Logo, somente a partir da distensão da alma junto à dialética do tríplice presente que podemos comprovar o caráter ativo da alma de presenciar a noção real de temporalidade humana tão buscada por Santo Agostinho. Enfim, observa-se que o que Agostinho postulou, abriu caminhos profundos para uma nova e profícua análise do tempo como aqui proposto, especificamente daquela que parte da objetividade para a subjetividade do indivíduo, demonstrando quão rica e produtiva ainda se torna a sua obra.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AGOSTINHO, Santo, Tradução de J. Oliveira Santos. S.J., e A. Ambrósio de Pina. S.J., Confissões,

RICOEUR, Paul. (1995). Tempo e narrativa. Campinas: Papirus. SANTO Agostinho. De Magistro. In: Santo Agostinho, São Paulo: Abril Cultural, 1973, Coleção Os Pensadores.

GILSON, E. Introdução ao estudo de Santo Agostinho. São Paulo: Discurso Editorial; Paulus, 2006. REALE, G.;

ANTISERI, D. História da Filosofia: Antiguidade e Idade Média. Vol. 1. 10. Ed. São Paulo: Paulus, 2007.

ROSSATTO, N. D. BOTTON, J. B. Tempo narrado: Paul Ricoeur e Agostinho.Guarapuava, PR : Unicentro, 2011, v.1, p. 111-150.