Immanuel Kant
04 / EnsaioFilosofia

Immanuel Kant

A dedução metafísica kantiana como fio condutor entre o entendimento puro e o múltiplo da sensibilidade

Sobre a síntese pura, a imaginação e o entendimento

Juízo · Dedução transcendental · Intuição pura · Sensibilidade

A DEDUÇÃO METAFÍSICA KANTIANA COMO FIO CONDUTOR ENTRE O ENTENDIMENTO PURO E O MULTIPLO DA SENSIBILIDADE

Tema: Dissertação realizada como objetivo de propor uma análise acerca da seguinte passagem:

''Analiticamente, diversas representações são reunidas sob um conceito (um assunto de que trata a lógica geral). A lógica transcendental, porém, não ensina a reunir representações sob conceitos, mas sim a colocar a síntese pura das representações sob conceitos. A primeira coisa que tem de ser dada a priori, com vistas ao conhecimento de todos os objetos, é o diverso da intuição pura; a segunda é a síntese desse diverso por meio da imaginação, mas ainda não fornece um conhecimento. Os conceitos que dão unidade a essa síntese pura, e que consistem tão somente na representação dessa unidade sintética necessária, constituem a terceira coisa necessária para o conhecimento de um objeto apresentado e residem no entendimento.''

Palavras-chave: Juízo, Dedução transcendental, intuição pura, sensibilidade.

SAO PAULO, 2019

INTRODUÇÃO

Neste trabalho pretende-se expor uma analise dos aspectos principais de Kant e sua exposição metafísica e também os elementos constitutivos para o esclarecimento de sua dedução transcendental. Visa-se também seguir alguns dos passos mais importantes de sua argumentação, como é o caso da dedução objetiva e da dedução subjetiva das categorias do entendimento puro. Nessa última, aborda-se o modo pelo qual o objeto da experiência é sintetizado a partir das três fontes subjetivas da sensibilidade, da imaginação e do entendimento. Com isso, chega-se à concepção do que seja o conhecimento objetivo proporcionado justamente por essas fontes subjetivas. Desse modo, iremos considerar, nesta primeira parte do trabalho, o plano sistemático apresentado na Crítica da razão pura no que concerne tanto à demarcação do campo do conhecimento em sentido estrito mediante o uso teórico constitutivo da razão para no final validarmos ou não o questionamento pertinente de Paul Wolff sobre se faz realmente necessário haver determinada análise sobre a existência da relação entre os entendimentos com o múltiplo da sensibilidade.

PRIMEIROS PRINCÍPIOS DA POSSIBILIDADE DE NOSSO CONHECIMENTO EM GERAL

Convém primeiramente descrever o que significa para o filósofo Immanuel Kant - Königsberg22 de abril de 1724 / 1804 -- esse procedimento complexo que dá-se o nome de dedução transcendental das categorias do entendimento puro. Em base, se refere ao procedimento final onde se faz necessário realizar uma dita analítica dos conceitos após sua estética transcendental e do modo pelo qual adquirimos os dados da sensibilidade (espaço e tempo). Para Kant, o que conseguimos apreender pela sensibilidade deve agora ser sintetizados e verificar sua viabilidade de se relacionarem ou não com os dados da sensibilidade verificando qual forma se aplica a ela. A parte que conduz ao processo da dedução transcendental é o capítulo primeiro da "Analítica dos

1.Estudante de graduação em filosofia

conceitos", intitulado: "Do fio condutor para a descoberta de todos os conceitos puros do entendimento" que abordaremos no decorrer do texto. Importante frisar que os conceitos do entendimento são por si só encontráveis, já que na filosofia kantiana é justamente ela que submete a razão ao tribunal da própria razão , ou seja, a razão é a única responsável pelo seu conhecimento sendo a dedução o princípio responsável que irá conduzir o entendimento ao conhecimento de si mesmo. Assim com base no tema a ser analisado a tarefa capital da obra critica da razão pura está em conseguir responder: O que podemos conhecer ? Pois conhecendo os elementos constituintes do entendimento, conseguimos consequentemente conhecer aquilo que nos chega como representações. Saber aquilo que se pode conhecer.

Dessa forma a questão principal passou a de identificar os limites e as condições do conhecimento humano. Essa é a problemática transcendental que fundamenta todo o decorrer de sua obra. Todo o objetivo da dedução repousa sobre a questão, de como os conceitos puros do entendimento devam determinar os objetos de uma experiência possível e assim conferir-lhes conhecimento e realidade objetiva. Como se sabe, esse é um problema nascido em 1772, na Carta a Marcus Herz, na qual Kant se pergunta:

[...] enquanto examinava a parte teórica, considerando o seu esboço completo e a relação recíproca de todas as suas partes, notei que algo de essencial ainda me faltava que, como os outros, eu tinha descuidado nas minhas investigações metafísicas e que, de fato, constitui a chave de todo o mistério da metafísica, que até então estava escondido de si mesma.

A distinção entre o uso teórico constitutivo e o uso teórico especulativo da razão na conhecida carta Kant, considera tanto as suas investigações contidas na dissertação de 1770, bem como o projeto de uma nova obra que daria conta de uma auto revisão sistemática do plano da filosofia como um todo afirmando que havia se descuidado nas minhas investigações metafísicas e que, de fato, constitui essa analise seria a chave de todo o mistério da metafísica, que até então estava escondido de si mesma pois como descrito pelo próprio filósofo. Entretanto, ao procurar rever suas investigações surge o um novo problema novo que Kant acaba de descobrir e que já anuncia a questão transcendental -- o problema da origem da representação na medida em que nessa origem a relação com o objeto não pode ser compreendida como uma relação de causalidade -- e esse problema diz respeito apenas às representações do nosso entendimento.

Esse problema novo está contido na seguinte questão: " onde vem o acordo que as representações do entendimento devem ter com objetos?". Na sua carta a Herz, Kant não chega a avançar uma solução, limitando-se a apontar que essa questão (a questão chave de toda a metafísica) o levou a dividir a metafísica em partes essencialmente diferentes. Assim Kant afirma que a primeira definição é clara: um conceito puro do entendimento é aquele que proporciona a condição de universalidade e necessidade à experiência. A partir dessa definição pode-se inferir que tais conceitos não são obtidos nunca a partir da sensibilidade, isto é, não se trata aqui de uma dedução empírica, mas, ao contrário, de uma dedução transcendental na qual parte justamente de princípios a priori.

Se não houvesse conceitos puros do entendimento, não haveria igualmente uma possibilidade de conhecimento da experiência, o que leva Kant a dizer que os conceitos são gerados no momento em que são aplicados aos dados da experiência. Esse é justamente o caso, diversas vezes relatado na Crítica, de que as categorias são nelas mesmas vazias, e que só aplicadas aos dados da intuição podem ser de alguma forma determinadas. Dessa forma, não é por meio da abstração empírica que se obtêm o conceito puro, pois, como já foi dito, um conceito a priori requer para si a universalidade que a experiência não pode fornecer.

No primeiro capitulo da crítica em a Analítica dos conceitos tem se que realmente possuímos conceitos puros do entendimento através da lógica pela qual conhecemos as coisas à nossa volta, devemos nos atentar em investigar como que esse entendimento puro se relaciona e se reporta ao múltiplo para confirmarmos ou não se realmente existe essa possibilidade do conhecimento da experiência. Pois não observamos uma clara evidência da dedução transcendental estar relacionada com a sensibilidade como algo intuitivo semelhante a um raciocínio matemático proveniente da geometria por exemplo. Na visão de Kant somente a dedução transcendental mostrará, com efeito, que as representações dos objetos (Objekte) da sensibilidade só podem ser efetuadas se as categorias do entendimento puro referirem-se de fato a esses objetos. Logo, é completamente lícito, portanto, perguntar-se acerca da necessidade de uma dedução transcendental, já que a sua aplicação aos dados da sensibilidade seria tão certa quanto a sua não-aplicação de acordo com Wolff em Kant's Theory of Mental Activity.

AS SÍNTESES NAS DEDUÇÕES TRANSCENDENTAIS

Se podemos assim como Kant dizer que os objetos da experiência só podem ser pensados a partir dos conceitos puros do entendimento e nunca por outro modo, teremos com isso uma demonstração suficiente da validade objetiva de tais conceitos. Assim, temos que, até aqui, os problemas tratados por Kant referiram-se à parte objetiva da dedução, ou seja, de que as categorias, aplicando-se aos objetos da experiência, fornecem um conhecimento objetivo destes. Eis que então nos deparamos com uma das peculiaridades da dedução na primeira edição, que é a nomeação das faculdades proporcionadoras desse conhecimento objetivo como faculdades subjetivas. As três capacidades de conhecimento responsáveis pelas três sínteses necessárias ao conhecimento contêm as condições da possibilidade de toda a experiência. São elas a síntese da intuição, a síntese da imaginação e a síntese da apercepção.

Analisemos a seguinte passagem em Kant:

''O que se entende pois, quando se fala de um objeto (Gegenstand) correspondente ao conhecimento e, por consequência, também distinto deste? É fácil de ver que este objeto (Gegenstand) apenas deve ser como algo em geral=X, porque nós, fora do nosso conhecimento, nada temos que possamos contrapor a esse conhecimento, como algo que lhe corresponda. ''

O filósofo pretendeu expor esse trecho afim de demonstrar aqueles que

(KANT, "A", p.105).''

pretensiosamente poderiam levar o objeto da analise das deduções por um viés empirista. Pois em sua visão é justamente esse objeto o transcendental, e o incondicionado denominado por Kant de Gegenstand condicionado pelas nossas capacidades de conhecimento que está situado fora deste. O processo da síntese da intuição, responsável pela apreensão dos dados da sensibilidade foi exposto na "Estética transcendental". Consiste em que nossas representações, sejam elas quais forem, nos chegam através do sentido interno e como tal estão submetidas ao tempo. Agora, no âmbito da "Analítica dos conceitos", como dissemos mais acima, procura-se justamente a forma pela qual esse múltiplo fornecido pela sensibilidade seja sintetizado pelo entendimento, seguindo-se o método fornecido por uma dedução transcendental. De fato, sendo a imaginação a faculdade intermediária entre sensibilidade e entendimento, é justamente ela a responsável pela comunicação entre as duas faculdades absolutamente heterogêneas quanto aos seus objetos de conhecimento. Realizados esses dois processos parciais, primeiro, a síntese da apreensão na intuição, segundo, a síntese da reprodução na imaginação, é necessário que todo esse processo constitua-se agora numa unidade. Somente a partir de uma unidade é que podemos reconhecer aquele múltiplo de representações, intuído e perpassado, como sendo nosso. É esse justamente o trabalho da última síntese realizada pelo entendimento, chamada de ''síntese da recognição no conceito.''

A faculdade da imaginação, portanto, sendo ela transcendental, é a responsável pela possibilidade da experiência, à medida que torna possível essa associação dos fenômenos e a afinidade entre sensibilidade e entendimento puro. Assim, dirá Kant, por mais estranho que possa parecer, todo o conhecimento da experiência repousa sobre essa função transcendental da imaginação, ao tornar essa experiência possível de ser conhecida. Ao predizer, portanto, uma ordem pela qual as representações são organizadas pela imaginação, Kant elimina a possibilidade de o nosso conhecimento se dar de um modo meramente acidental.

A investigação do problema da razão pura se ocupa, assim, apenas dos princípios da síntese a priori. O resultado da "mudança de método na maneira de pensar", que Kant expõe na Crítica da Razão Pura, é a divisão do sistema da razão pura em duas partes principais: a teórica e a prática. Do mesmo modo que, em sua teoria do conhecimento, há, entre a coisa em si e o fenômeno, entre a forma e o conteúdo, entre o infinito e o finito, um abismo intransponível e a sensibilidade moral, outro intransponível abismo metafísico, de tal modo que o "imperativo categórico" de Kant ( age de tal maneira que o princípio de tua vontade possa, em qualquer tempo, ser um princípio da legislação geral). Percebemos aqui como Kant elimina a possibilidade de o nosso conhecimento se dar de um modo meramente acidental.

Essa organização segundo leis e regras é justamente o que o permite pressupor um princípio objetivo do conhecimento, segundo o qual aquilo que conhecemos não se dá nunca de forma contingente, e sim determinada. Sem esse princípio da afinidade, mediado pela imaginação poderia muito bem ocorrer que eu tivesse diversas consciências empíricas e ao mesmo tempo separadas de uma consciência única, o que é de fato impossível. Sendo a função da afinidade justamente o de mostrar que o entendimento puro, antecede a experiência, Assim, "a afinidade de todos os fenômenos é uma consequência necessária de uma síntese na imaginação, que está fundada a priori sobre regras" 4 .

CONCLUSÃO

  Logo, não seria exagero dizer que a crítica da razão pura é a obra mais importante acerca da teoria do conhecimento na era moderna. Kant obtinha o desejo de investigar até aonde o nosso intelecto consegue chegar na compreensão do mundo , ou seja, até onde ele pode conhecer. A ideia de que antes de nos dedicarmos a investigar as coisas no mundo precisamos ter nos certificado dos reais limites de nossa capacidade de conhecimento, a ideia de que os objetos de conhecimento não correspondem às coisas no mundo, mas são versões transformadas delas. Disso fica claro que somos nós quem introduzimos a ordem e a regularidade nos fenômenos. Segundo Lebrun em

4-. (KANT, "A", p.123).

5 - O subsolo da Crítica Gérard Lebrun. 81

sua obra Kant e o fim da metafisica, o filósofo em sua primeira crítica ainda acreditava em um conhecimento metafísico, um saber especulativo sobre temas como Deus e a alma, que será mais tarde rompido cumpriu a tarefa de arrancar o homem de seu antropocentrismo. Mas, que nunca deixaria de percorrer a obra do filósofo se estabelecendo o que Lebrun chama de "uma crítica subterrânea".

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

__ KANT. IMANNUEL. Crítica da razão pura. Ed. VOZES.

__ O subsolo da Crítica -- Uma conferência inédita de Lebrun sobre Kant.

__ GERARD Lebrun , Kant e o fim da Metafísica. 2002

__CALVET DE MAGALHÃES, Theresa. Crítica e Sistema em Kant.. Vila Nova de Cerveira: Horizonte das Artes, 1993

__.Dissertação de 1770. Carta a Marcus Herz.. Lisboa: Imprensa Nacional/ Casa da Moeda, F.C.S.H. da Universidade de Lisboa, 1985.