À PULSÃO DA MORTE FREUDIANA COMO POSSIBILIDADE NA CRÍTICA SOCIAL DE AXEL HONNETH
Resumo: Axel Honneth associa sua leitura de Hegel à psicologia da maturação de Winnicott de modo a defender teses sobre intersubjetividade e reconhecimento. Esta articulação entre filosofia e psicanálise é objeto da crítica de dois hegelianos: Joel Whitebook, leitor de Freud, e Judith Butler, leitora crítica de Freud e Lacan. No centro da polêmica está a rejeição honnethiana ao trabalho do negativo realizado pela pulsão de morte freudiana. Pretendemos seguir o rastro deste debate e investigar as razões e consequências para a crítica social da recusa do frankfurtiano à pulsão.
Palavras-chave: Psicanálise. Reconhecimento, Pulsão , Identidade Dominação.
SAO PAULO, 2019
INTRODUÇÃO
Higor Nogueira Souza¹
Este texto terá como base O direito da liberdade (2011) obra acerca da liberdade intersubjetiva em Honneth a fim de fornecer uma explicação. Verificar aonde está a gênese sobre o impulso de revolta contra formas estabelecidas de reconhecimento, na intersubjetividade como fornecido pelo empirismo de Winnicott ou por meio da pulsão de morte em Freud. Dessa forma, o trabalho pretende primeiramente abordar a influencia do pensamento hegeliano na filosofia de Honneth procurando identificar a gênese dessa contraposição frente a psicanalise para então apresentar a possiblidade abordar a questão das pulsões de morte ignoradas por Axel Honeth na constituição do reconhecimento do sujeito descrevendo as pulsões. Pois as pulsões freudianas são sim comprovadamente através da descrição do conceito do simbólico por Lacan como necessariamente inerentes a constituição do sujeito.
JOVEM HEGEL NO CAMPO DO RECONHECIMENTO
No centro da polêmica está a rejeição honnethiana ao trabalho do negativo realizado pela pulsão de morte freudiana. A insistência em defender uma leitura intersubjetivista de Hegel o teria impedido de perceber aspectos produtivos para a crítica social em experiências ligadas à pulsão de morte? Para dar início a nossa investigação devemos retomar os trabalhos de Honneth da década de 1980. Se faz nítido que Honeeth prefira versões mais empíricas da psicanalise frente a vertentes mais teóricas denominando certas de serem até metafísicas seus pensamentos. Muito embora constantemente faça referências a Freud, como já dissemos, Honneth rejeita teses centrais freudianas, principalmente a teoria das pulsões.
Axel Honneth, atual diretor do Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt, foi assistente de Jürgen Habermas entre 1984 e 1990 e é figura central da terceira geração da teoria crítica. Honneth busca realizar uma reconstrução crítica da teoria habermasiana, que, segundo ele, teria negligenciado a vida psíquica, a corporeidade e as expectativas de sujeitos que se engajam em conflitos sociais. Tal intuito o leva a confrontar o problema da constituição do sujeito, enfrentado por meio de uma articulação entre sua leitura intersubjetivista de Hegel e a psicologia da maturação de Donald Winnicott.
Por este caminho, nosso autor propõe pensar como experiências de desrespeito, assim como expectativas de autorrealização dos sujeitos, podem impulsionar lutas por reconhecimento, as quais carregam o potencial de gerar uma ampliação da liberdade. Tanto nosso autor como seus adversários acreditam que existem, no ser humano, forças de destruição da ordem. As divergências seriam sobre o lugar de origem dessas energias: freudianos e lacanianos defendem que derivam da pulsão de morte, já Honneth rejeita este conceito e sustenta que tais forças antissociais surgem no processo de separação entre mãe e bebê. Por meio do pensamento estrutural exposto acerca da dependência do sujeito, de que o indivíduo é tido como um ser irredutivelmente social, passando a se apoiar na ideia hegeliana de negação. É este movimento que Hegel tratará como desejo, este caráter negativo que visa assimilar o outro, externo a si, passível de transformação.
Em Do desejo ao reconhecimento: os fundamentos hegelianos da consciência-de-si, publicado originalmente em 2008, o frankfurtiano expõe sua interpretação, bastante particular, da Fenomenologia do Espírito, a qual propõe caminhar do desejo em direção ao amor. A Divergencia se dá basicamente no ponto entre os diferentes pontos de vistos acerca do pensamento hegeliano tanto por Honneth como por pensadores da clinica psicanalítica influenciados por meio do filósofo russo -- alemão Alexandre Kojévé acerca do seu pensamento acerca do desejo em Hegel pois enquanto o desejo neste detém uma conotação carnal, de apetite em Honneth à noção freudiana de pulsão de morte (que se dirige à recondução do organismo vivo a um estado inorgânico) e defende que há uma potência primária de negatividade no sujeito, de origem biológica, o desejo por reconhecimento em Hegel diz respeito aos meios sociais os quais permitem ao sujeito satisfazer seu desejo de que sua atividade de modificação no espaço em que vive possa ser experimentada. O frankfurtiano escreve, neste trabalho, que, para o psicanalista inglês, logo após o nascimento, bebê e mãe (ou outra figura significativa) conformam uma dinâmica de dependência absoluta (ou, nas palavras do filósofo, de simbiose), dependem inteiramente um do outro para a satisfação de suas carências. Com o tempo, entretanto, a mãe volta a dirigir sua atenção à vida social e não mais responde imediatamente às demandas do bebê.
As divergências seriam sobre o lugar de origem dessas energias: freudianos e lacanianos defendem que derivam da pulsão de morte,
AFIRMAÇÃO DA INTERSUBJETIVIDADE FRENTE A NEGATIVIDADE DO SUJEITO
Em o inquietante Freud conecta a pulsão de morte àquilo na compulsão à repetição que provoca estranhamento ou inquietação: Tal sensação de inquietação e estranhamento não se aplica a intersubjetividade de Honneth que não encontra uma postulação á altura. Para Freud, toda tensão gerada no organismo era sentida como desprazer, e sua consequente descarga era sentida como prazer. Poderíamos dizer que após a primeira tensão que dera origem à vida surgira, concomitantemente, uma pulsão para levá-la novamente ao estado inorgânico. Esta "hipótese", "especulação", foi o que originou a Pulsão de Morte, uma força que eliminaria toda tensão no indivíduo levando-o ao estado inorgânico. Esta força estaria em luta com as forças que procuram manter a vida: Eros. As pulsões trabalhariam sempre em oposição umas às outras e essas forças destrutivas seriam desviadas para fora pela Pulsão de Vida na forma de agressão, ajudando o organismo a manter-se protegido.
Seriam as diferenças entre freudianos e intersubjetivistas, de fato, pouco relevantes? Ao rejeitar a pulsão de morte, Honneth não teria deixado de lado justamente a dimensão da teoria psicanalíse ? Já que existem teorias diversa defendendo a recorrência clínica de fenômenos transferenciais (e não as ideias freudianas sobre biologia) é, segundo Laplanche (1985), a maior prova da força da pulsão de morte. Devemos lembrar que Lacan conecta o estranhamento freudiano à angústia. A angústia é aquilo que faz o que é fixo vacilar, faz que as imagens do mundo se dissolvam. Tal despedaçamento é efeito do trabalho do negativo e pode abrir espaço para transformações profundas no sujeito. Noutros termos, "a pulsão de morte não é senão a máscara da ordem simbólica"4. Isso
(Lacan, 1978, p. 375).
faz do homem uma espécie de cyborg: "O próprio ser humano está em parte fora da vida, ele participa da pulsão de morte" (Lacan, 1978, p. 113). A crença de que forças de negatividade derivam de uma pulsão de origem biológica e não intersubjetiva (ou social). Tal suposição teria fornecido à psicanálise freudiana uma forte carga metafísica o: "a permanência das lutas por reconhecimento não surge de uma pulsão não socializável, mas de uma busca por independência que leva cada sujeito a negar repetidamente a diferença do outro" (Honneth, 2003b, p. 315). Lutas por reconhecimento
Dessa forma defendo que devemos insistir que as ideias de intersubjetividade provenientes das primeiras gerações da escola de Frankfurt mais precisamente Habermas e de autolimitação recíproca, alicerces da teoria honnethiana, determinam a forma que nosso autor lê a psicanálise. aqui, dos escritos de juventude) deveria vir de Winnicott. O frankfurtiano escreve, neste trabalho, que, para o psicanalista inglês, logo após o nascimento, bebê e mãe (ou outra figura significativa) conformam uma dinâmica de dependência absoluta (ou, nas palavras do filósofo, de simbiose), dependem inteiramente um do outro para a satisfação de suas carências3. Com o tempo, entretanto, a mãe volta a dirigir sua atenção à vida social e não mais responde imediatamente às demandas do bebê. "a partir da percepção gradual de uma realidade resistente ao domínio, o bebê desenvolve rapidamente uma disposição para atos agressivos, primariamente dirigidos à mãe, percebida agora também como ser independente"
(2003b, p. 162).
CONCLUSÃO
Não podemos negligenciar o papel da teoria do reconhecimento honnethiana: o frankfurtiano dá um passo fundamental ao situar o sujeito e a teoria psicanalítica no cerne da crítica. Assim este trabalho visa ressaltar acerca dos temas da problematização acerca das teorias de reconhecimento problematizada por Honnet e conseguimos observar no decorrer do texto apresentado a preferencia de Honneth por aspectos empíricos ao invés de puramente teóricos, provenientes da clínica psicanalítica.
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
LACAN, Jacques. Seção I . Seminários XVI, XVII.
KOJÉVE, Alexandre. Introdução à leitura de Hegel : Leituras da fenomenologia do espírito. 1947
HEGEL, Fenomenologia do espírito. Os pensadores.
ARRUDA RIBEIRO CARDOSO, Irene. Revista Discurso. USP-FFLCH.
² Lacan. Na Direção da Cura
¹ Estudante graduação em Filosofia-USP

